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Dados em jogo

Há 294 jogadores africanos e sul-americanos
que chegaram à Europa com menos de 18 anos
a jogar nas principais competições de futebol do continente.

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Cada um destes pontos representa uma criança
a quem foi vendido o sonho de um dia
se poder tornar num grande jogador de futebol.
Mas a maioria não tem essa sorte.

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Guiné-Bissau, Brasil, Senegal, Camarões e Costa do Marfim
são os países de origem de mais de metade destes jogadores.

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No total, contam-se 226 africanos e 68 sul-americanos.

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Portugal é o país da Europa que acolheu mais
jogadores africanos e sul-americanos menores.

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Mais de metade é oriunda das antigas colónias portuguesas:
Guiné-Bissau, Brasil, Cabo-Verde e Angola.

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A maioria destes atletas são jogadores dos três grandes do futebol português.

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Menores na Europa em 2014/2015

Nos principais clubes europeus
contam-se 49 africanos e 9 sul-americanos menores.
Mais de metade joga em Portugal.

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A maioria dos menores a jogar futebol na Europa vem da Guiné-Bissau.

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30 clubes europeus têm no seus plantéis jogadores
com menos de 18 anos oriundos de África e da América Latina.

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No final de 2014, o  SEF investigou 104 clubes
e associações desportivas em todo o país e identificou 508 atletas estrangeiros,
dos quais 203 estavam em situação ilegal.
Em pelo menos 25 clubes foram encontrados atletas
em situação ilegal, avançou o Expresso em Fevereiro de 2015.

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Saiba mais sobre o processo de recolha de dados.

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Metanarrativa

Bem-vindos à Divergente capítulo I

Paulo Nuno Vicente, director da Divergente

A Divergente nasce em tempos desafiantes para o jornalismo: os modelos de sustentabilidade em erosão, a precarização do ofício, o êxodo de cérebros de confiança, os ciclos intermináveis de estágios para os recém-chegados, a opacidade nas estruturas accionistas, a camuflagem publicitária, e a vertigem do “click” e do “pageview”, entre outros.

Neste cenário, admitimos que a investigação original, realizada com o estudo e com a minúcia que só um tempo lento permite, soe a quixotesco. Talvez. Mas acreditamos que ela é imprescindível para as nossas sociedades complexas: não damos a democracia pluralista como um bem historicamente adquirido; entendêmo-la como um património que é necessário preservar diariamente.

Acreditamos que é decisivo um renascimento do jornalismo – na sua concepção e na sua prática – assumimos “revelar” como verbo fundamental e “aprofundar” como verbo auxiliar. Queremos fazê-lo com os nossos leitores – e não apenas para eles. Com o apoio de cidadãos preocupados e comprometidos, acreditamos que é possível revitalizar o ofício.

O eixo da nossa agenda de trabalho tem três pontos: investigação, narrativa (“storytelling”) e dados (“big data”). Assumimos uma grande investigação por ano, mas não nos comprometemos com uma periodicidade regular. Garantimos aos nossos leitores a mais bem investigada e mais bem narrada “estória” possível. A par das investigações mais complexas, publicaremos regularmente notícias e peças multimédia – sempre com investigação própria e sempre com transparente independência.

A Divergente é um projecto jornalístico dos Bagabaga Studios, uma cooperativa de media digitais, criada em 2013.

O processo de pesquisa capítulo II

Nesta primeira edição, publicamos uma investigação original desenvolvida durante mais de ano e meio, cruzando três geografias – África, América Latina e Europa. Em todas elas realizámos trabalho de campo original, parcialmente suportado por uma bolsa de produção do Journalism Fund.

Consideramos vital a transparência de processos para a confiança pública no jornalismo. Assim, adoptámos um método interno de verificação de factos, tornando mais robusta e credível a informação recolhida. Do mesmo modo, explicamos abertamente aos leitores as etapas de pesquisa percorridas pelos dois autores principais do trabalho publicado – Sofia da Palma Rodrigues e Diogo Cardoso.

Notícias soltas iam dando conta de vários casos de jovens jogadores de futebol vindos de África e da América Latina para treinar na Europa e deixados cair no desamparo. Nenhum membro da equipa tinha memória de um trabalho jornalístico que tocasse o epicentro do problema e a sua complexa rede de interacções. A epifania foi-se instalando na mente da Sofia.

Queríamos dar voz aos personagens principais, reconstruir a teia que os tinha trazido até à Europa, contrariando a tendência para a sobrevalorização de fontes oficiais, de vozes distantes e autoritárias. Procurámos dar rosto aos números: Francisco, Valentine e Cassiano são pessoas com uma voz activa. Deles partimos para todas as fontes ouvidas nesta reportagem:

info-fontes-_-cassiano- info-fontes-_-francisco-info-fontes-_-valentine-_-final_2O primeiro passo para a investigação deu-se com o envio de um e-mail para Eliano Jorge, jornalista da Folha de São Paulo, depois de a Sofia ter lido o relato sobre o assédio de clubes europeus. Através de Eliano, chega a Francisco de Jesus, pai de Cassiano Bouzon, “o Messi do Brasil”.

Arrancámos com a expectativa de abranger a quase totalidade dos países de expressão portuguesa, mas as informações de partida tornavam evidente que seria relevante abarcar todos os países africanos e latino-americanos, estabelecendo pontes entre as principais competições europeias e a proveniência dos jogadores.

Entre Março e Dezembro de 2014, a Sofia residiu no Brasil. Nesse período, foi conhecida a decisão da Comissão Disciplinar da FIFA de proibir a contratação de novos jogadores pelo FC Barcelona, por infrações à transferência de menores de idade. O “gancho”, na gíria jornalística, era ideal.

O primeiro encontro entre a nossa jornalista e a família de Cassiano deu-se a 22 de Abril de 2014. Rapidamente se instalou uma relação de amizade, com a Sofia a ser convidada para a Profissão de Fé de Cassiano, então com 13 anos. Ano e meio depois, a jornalista conta que “muitas das conversas que estava a ter não eram conversas jornalista-entrevistado, mas diálogos de família. Por isso, não publiquei tudo aquilo” – certa tarde, Cassiano estava mais interessado em ensinar-lhe como fazer tapioca, do que em dar uma entrevista. Mas a tapioca teria de esperar.

Os dados capítulo III

Por esta altura, iniciou-se a pesquisa de dados estatísticos relevantes, que nos permitissem extrair tendências globais, enquadrar ou revelar casos particulares a desenvolver, sob forma narrativa, no contexto das várias competições onde participam os principais clubes de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Itália.

O primeiro contacto foi estabelecido com Carlos Henrique Ribeiro, professor universitário de Educação Física, na Universidade Gama Filho (PPGEF) com investigação relevante sobre o tema. Foi Carlos o primeiro a explicar-nos que seria “difícil, senão quase impossível, encontrar dados organizados nas instituições relacionadas com futebol sobre jogadores oriundos da América Latina e de África. Por muitos motivos, o principal é que a maioria não tem registo”, escreveu.

Entre Maio e Outubro de 2014, contactámos os Sindicatos dos Jogadores de Futebol em Inglaterra, Espanha e Portugal, a FIFA, as Federações Portuguesa e Italiana de Futebol e o CIES Football Observatory. Foi nesta altura que surgiu a primeira referência à plataforma zerozero.pt, com Carlos Henrique Ribeiro a dizer-nos que, no seu conhecimento, “é a base de dados pública mais completa”.

Procurámos compreender o processo de recolha, tratamento e publicação do website que se apresenta como contendo “sem restrições, a informação de um vasto número de provas nacionais e internacionais”. Luís Rocha Rodrigues, director de informação do zerozero.pt, explica que todos os dados são “recolhidos e inseridos directamente por nós e pela rede de colaboradores do site, sendo que, nestes casos, a informação é sempre confirmada”.

Segundo Luís Rocha Rodrigues, os dados estatísticos referentes “aos plantéis das equipas seniores das seis ligas, são totalmente fiáveis. Cem por cento. Quanto aos juniores, (…) os que existem estão confirmados com uma taxa muito próxima do 100 por cento. (…) É praticamente nula a possibilidade de existir um ou outro jogador fictício, pois, em casos desses, há muita celeridade por parte dos leitores/colaboradores em nos denunciarem essas situações, que são prontamente tratadas”, explica.

Perante a inexistência (ou indisponibilidade) de uma base de dados oficial, decidimos adoptar a zerozero.pt como pilar da nossa investigação e responder a duas perguntas principais: 1) Dos futebolistas africanos e sul-americanos a jogar nos diferentes escalões dos clubes que marcaram presença nas primeiras ligas portuguesa, espanhola, italiana, francesa, inglesa e alemã, na época de 2014/2015, quantos chegaram à Europa com menos de 18 anos? 2) Destes, quantos são ainda menores e em que clubes se encontram?

Reconhecemos, contudo, algumas limitações – expectáveis para uma base de dados não oficial: não é possível diferenciar os motivos que trouxeram os jovens identificados; os números referem-se somente à época desportiva de 2014/2015; são apenas analisadas as diferentes competições (amadoras e profissionais) onde os grandes clubes de cada um destes países participa.

Identificada a fonte dos dados, construímos a nossa própria ferramenta de compilação e extracção. Isso permitiu rapidamente a identificação de casos e de episódios que fariam soar campainhas de alarme, evidenciando que a investigação começava a tocar zonas sensíveis.

É assim que surgem os nomes de Francisco, guineense a jogar no Everton, e de Valentine, que chama a atenção por ser um Nigeriano a viver na aldeia de Nogueira do Cravo, distrito de Coimbra.

O foco de toda a investigação agora publicada vai para os jogadores oriundos de África e da América Latina a jogar nos vários escalões dos clubes das principais Ligas europeias e que chegaram à Europa com menos de 18 anos de idade. Portugal é a sua principal porta de entrada. E o resto são “estórias”. Bem-vindos à Divergente!